quarta-feira, 25 de agosto de 2010


VÔOS NOTURNOS


Numa noite escura e espessa
me atrevi a amar-te
e descortinei essa dor perpetuada
se me vejo em ti.
Eu, que já subi tantos ermos,
que já escondi tanto miosótis
em pequenos formigueiros;
eu, que prefiro voar à noite
como morcegos e vampiros
sem ver luz nem alvos
sugando o ouro de dentro;
eu, que grito e rasgo o escuro
da noite em desespero;
eu, voando desesperada
pois me falta o equilíbrio da asa
e do alvo calcinado.
Os vôos não foram feitos
para pássaros cegos.
O meu despedaçar foi de encontro
à tua viscosa parede.
Nunca mais fui pura, meu amor.
Nunca mais.

quarta-feira, 28 de julho de 2010


Me diz meu amigo
Mas com carinho na voz
Sem precisar ser muito duro
Porque minha alma foge
E minha angústia me olha
Do canto da parede.
Me diz com calma e pacientemente
Para que a tarde não fuja pela janela
Para que eu não pegue aquela estrada
Para que eu não pule daquela ponte
Me diz com ternura no olhar
Sem tremer a voz de emoção
Há salvação para mim
Nesta noite quente?

domingo, 18 de julho de 2010

BALADA




É meio dia e os sinos tocam
uma balada triste...
Eles nem sabem que é primavera
e você nem percebe que o inverno se aproxima
pra nós dois.
A chuva cairá
E queimará seu coração...

terça-feira, 6 de julho de 2010

MANDACARU


(Para um grande amigo)


Um mandacaru seca ao sol...
Tem sede e anseia pela água.
Também tem medo e nem ousa balançar ao vento.
Seu silêncio imobiliza tudo ao redor.
Sua dor seca os olhos de quem o admira.

Mas na sua aparente fragilidade ele aguarda
e não desiste diante de nenhuma fatalidade.

Um mandacaru seca ao sol...
mas na próxima invernada
ele voltará mais verde do que nunca.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

INTOCÁVEIS


A palavra vem do meio do silêncio, quente e limpa como o choro.
O choro vem mais de dentro, onde as palavras não tem nenhum sentido.
O choro e a palavra complementam-se no espaço que não pode ser visto
porque não se vê enquanto se chora
e não se fala enquanto não se vê.

A palavra arrebenta o incomunicável.
O choro arrebenta o indecifrável.

O choro cala. A palavra silencia.

Nem tudo é tocável.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

CANSAÇO


Hoje, estou pequena demais. Cansa-me a casa, o quarto, a rudeza do dia. Tudo é vidro estilhaçado junto à janela. Pesa-me a alma. Pesa-me tanto que me torno impossível de um ato de carinho. Não quero mais esse rosto de tantos anos. Também não quero a maturidade de quem já sabe o que fazer com quadros antigos. Quero a criança que fui, tão constrangida. Quero o colo de minha mãe pra deitar-me como a primeira vez. Quero a leveza das coisas pra poder respirar e pular as janelas, inclusive as que dão aos abismos. Eu não sou uma flor. Sou uma mulher com muitos espinhos.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

CANTARES X


X

No canto do mundo
Há um doce estranhamento.
Minha pouca vestimenta
É uma grande ameaça
Para quem não fala
Minha estranha língua.
Quem ousa entrar
Na casa dos meus ontens
Sem nojo do meu grito?
Estou à beira de uma palavra
E nada salva
Esta última chama acesa.